Manifestações remuneradas

Os sindicatos norte-americanos, cansados de dialogar com os patrões, mas sem resultados, recorrem, cada vez mais, a «mão-de-obra especializada» para realizar manifestações pouco convencionais. «Queremos embaraçar os patrões para que passem à acção», diz Mark Kuzmik, do sindicato dos carpinteiros do Estado da Florida, EUA.

Manifestação do sindicato em Miami

São nove horas da manhã na quente cidade de Miami, o sul da Florida. Kuzmik segura um microfone e debita as primeiras ordens do dia. De segunda a sexta-feira, durante duas horas, este sindicalista lidera uma equipa de 54 pessoas, composta por delinquentes, sem-abrigo e reformados, que têm como única ocupação as manifestações do sindicato. São uma espécie de «mão-de-obra especializada» que recebe oito dólares por cada hora de trabalho.

Como de costume, o ponto de encontro é marcado diante de um dos arranha-céus da «lista-negra» do sindicato. «Fazemos pressão junto dos donos destes edifícios porque contratam empreiteiros que pagam salários muito abaixo da média», explica Kuzmik. «Estes empreiteiros, que abusam das subcontratações em cadeia, não querem saber de acordos laborais, dos seguros, das pensões ou dos contratos de trabalho. Até empregam muitos imigrantes e só lhes pagam cinco ou seis dólares à hora, quando pagam…».

«Durante muito tempo, tentamos entrar em acordo com empreiteiros e com os proprietários dos edifícios, mas riam-se de nós. Então decidimos sair à rua», justifica.

Manifestação do sindicato em Miami

«Eles estão a dar uma festa»

Chegado o momento da acção, os «assalariados» do sindicato demonstram que uma manifestação não é um acontecimento, necessariamente, aborrecido. Nos passeios de Miami, rodeados de palmeitas gigantescas, sobressai a figura de um ex-militar negro (pesso XXL) que entoa os cânticos de ordem. Tal como Kuzmik, serve-se de um megafone para gritar as instruções ao grupo. «Hei, hei, o que queremos?». «Queremos o rato (empreiteiro rato). Hei Rato, sai da toca… anda cá abaixo», respondem os companheiros, enquanto se movimentam em círculos e agitam latas de refrigerantes com bedelhos dentro.

Pelo dicionário do sindicato, todos os empreiteiros que desrespeitam a legislação laboral são «empreiteiros rato». Para acompanhar esta metáfora sindical, há ainda um manifestante mascarado de rato e uma outra de queijo. Como é de prever, nesta encenação, a função do rato é correr atrás do queijo. «Eles estão a dar uma festa. Divertem-se. Isso ainda enfurece mais os donos dos edifícios», comenta Kuzmik.

Os três membros do sindicato presentes no local distribuem folhetos aos transeuntes e explicam os motivos da manisfestação. «Queremos que as pessoas liguem para os proprietários e digam “Do the right thing” (façam as coisas bem). Escolham os empreiteiros que não fogem às suas responsabilidades». Numa avanida contígua, os automóveis passam e buzinam em sinal de solidariedade, deixando os manifestantes ainda mais eufóricos.

«Isto pode parecer pouco correcto, mas é ético. E acredito que é ético porque eles gastam milhões de dólares a construir uma imagem que não é verdadeira. Quando informámos o dono deste edifício que vínhamos para aqui protestar, ele disse: “Façam o que entenderem, o problema não é meu”. Pois bem, agora o problema é mesmo dele».

A polícia de Miami autoriza este género de manifestações. Mantém-se à distância e só actua quando o responsável do edifício onde está a decorrer a manifestação apresenta queixa. «Temos muito cuidado porque há leis neste país que não protegem as pessoas, protegem as corporações. Estes edifícios têm mais direitos que estas pessoas. Qualquer pessoa do mundo pode sentar-se neste edifício, mas se for um destes coitados, então chamam a polícia e vão presos», lamenta Kuzmik, dirigente sindical.

No entanto, a polícia local também beneficia indirectamente das manifestações. É que, de acordo com fontes policiais, os pequenos crimes na baixa da cidade diminuíram desde que o sindicato passou a ocupar o tempo dos manifestantes, muitos com cadastro criminal.

Estas insólitas manifestações do sindicato já embaraçaram alguns donos dos edifícios a ponto de só aceitarem empreiteiros em situação legal. Mas perante a indiferença de outros, há muita gente que pergunta a Mark Kuzmik quanto tempo serão capazes de resistir no mesmo local: «Quando este edifício decidir fazer o que está correcto, então vamos para outro edifício. E ficamos um dia a mais até estar tudo resolvido. Porque nesse dia voltamos para fazer aqui uma grande festa». O que pensam disto os sindicatos portugueses?

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Manifestação do sindicato em Miami

Este texto e fotografias resultaram de uma deslocação de trabalho a Miami pelo Expresso em 2004. Encontrar esta manifestação foi um mero acaso. Esta reportagem acabou por ficar esquecida e nunca chegou a ser publicada. Aproveito para a torná-la pública aqui no blogue depois de a ter descoberto quando andava em arrumações. Todos os direitos reservados para texto e fotografias.

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